Observe a fake news a seguir:

“Para conhecimento. O ‘perdeu, playboy’ tá liberado. Quem rouba celular que custa menos que 500 reais não é preso nem em flagrante, decide STF. E se custar mais de 500 reais é solto na audiência de custódia. Bom, nós estamos nas mãos dos bandidos deste país”.

Já aconteceu alguma vez de você se deparar com mensagens desse tipo em redes sociais e resolver compartilhá-las, justamente por ficar indignado e achar que o máximo de pessoas deveria ser solidário à sua revolta? Cuidado! Você pode ter sido vítima de uma fake news.

Fake

Essa palavra de origem inglesa significa “falso” e é comumente utilizada para denominar notícias inverídicas, perfis ou contas não originais, destinadas a camuflar a real identidade de uma pessoa.

Bem simples de entender.

O fake, quando associado com alguma matéria jornalística ou opinião em tom de informação, é denominado de “fake news”, que consistem em conteúdo pretensamente noticioso, mas sem compromisso com a verdade. São notícias manipuladas, muitas vezes descontextualizadas, com o simples intuito de convencer o leitor sobre um determinado ponto de vista.

Levando em consideração nosso tempo corrido, por conta dos inúmeros compromissos diários, o fake assume um formato mais simplista e objetivo. Geralmente vem resumido por afirmações enfáticas e dados escandalosos, relacionado a temas polêmicos para a sociedade, com o objetivo de atingir o mais rápido possível o maior número de pessoas através de sua viralização.

Outro ponto curioso são as fontes utilizadas para embasar as próprias mentiras. Em alguns casos, as fontes são reais, trazem pesquisas sérias e dados concretos, contudo, as conclusões ou dados de um determinado estudo são selecionados para dar sustentação a um assunto diverso do apresentado na pesquisa.

Ou seja, a fake news não é uma mentira pela mentira, quando bem construído ele pode apresentar inclusive fontes. Mas é preciso ter o cuidado de verificar essas fontes, fazendo o comparativo com aquilo que vem sendo exposto. Assim você poderá perceber a manipulação dos dados de acordo com aquilo que o autor deseja provar.

O fake como problema político e social – Parte 1

Fake news

Quem acompanhou meu artigo “No self service da informação, quem está pagando a conta?” deve lembrar que o Facebook tem um enorme poder. Poder esse capaz, inclusive, de definir o próximo presidente de um país.

Pois bem, preocupado com a propagação de inverdades, Mark Zuckerberg lançou um programa em parcerias com as Agências de verificação de fatos a fim de avaliar melhor os fatos denunciados como falsos pelos usuários da rede social.

Confirmada a falsidade, há uma atuação no sentido de diminuir o compartilhamento e o alcance desses materiais, o que significa dizer um decrescimento da aparição desses conteúdos em nossos feeds de notícia.

Mike Cernovich

Se você ainda não consegue conceber a dimensão e o poder de uma fake news, conheça o caso de Mike Cernovich. Mike se tornou conhecido nos Estados Unidos às vésperas da última eleição presidencial, esta que elegeu Donald Trump presidente (2016). O americano, até então pouco conhecido, lançou na internet uma falsa teoria da conspiração que envolvia a candidata concorrente de Trump, Hillary Clinton.

Segundo a teoria, Hillary organizava um ritual sexual com crianças, bem no porão de uma pizzaria nos Estados Unidos. Por conta disso, outro americano, Edgard Maddison Welsh, decidiu invadir uma pizzaria em Washington, portando um fuzil e efetuando disparos. Seu objetivo era desarticular a rede de pedofilia sob os porões da pizzaria, contudo, logo se descobriu que não existia nem porão, muito menos rituais de pedofilia lideradas pela então candidata a presidência dos EUA.

É importante destacar que Cernovich faz parte de um movimento de extrema-direita conhecido com “Alt-Right”. O movimento traz pautas homofóbicas e de supremacia branca. A passeata nazista que aconteceu no ano passado em Charlottesville foi uma das atividades da Alt-Right. Se você quer saber mais sobre o caso de Charlottesville, clica nesse link aqui.

As fake news como problema político e social – Parte 2

O caso de Marina Silva

No campo político, a pré candidata à presidência da República 2018 Marina Silva (REDE) teve seu nome vinculado de maneira errônea a delações premiadas de executivos da OAS e da Odebrecht por parte de uma página de Facebook. Foram cinco postagens da página denominada “Partido Anti-PT”. O Tribunal Superior Eleitoral foi acionado e determinou um prazo de 48h para que o Facebook retirasse o conteúdo do ar.

O caso da Marina Silva contém algumas sutilezas e deve ser avaliado atentamente. De fato, o nome da presidenciável foi mencionado numa delação, contudo não se caracterizava como objeto de investigação da justiça, uma vez que a presidenciável havia declarado todas suas contas para a Justiça,provando a legalidade das doações recebidas. Ou seja, pegaram um ponto verídico – o fato do nome dela ter aparecido numa delação – e montaram toda uma história falsa a fim de desmoralizar a candidata – colocando ela como se tivesse aceitado dinheiro ilegal.

Dinheiro público investido em mentiras

Noutra faceta da propagação de fake news pela internet e suas redes sociais, foi recentemente descoberto que o deputado federal Fernando Francischini, do PSL, destinou 24 mil reais de sua cota parlamentar para financiar uma rede de sites apontados como veículos disseminadores de fake news. 

De acordo com reportagem da UOL, “As notas aparecem no Portal de Transparência da Câmara dos Deputados e foram emitidas pela empresa Novo Brasil Empreendimentos Digitais para “divulgação da atividade parlamentar”. Foram pagos R$ 4.000 mensais de dezembro a março e outros dois pagamentos de mesmo valor realizados em abril”.

Nota fiscal no valor de R$4.000 reais pagos pelo deputado Francischini a empresa acusada de disseminar Fake News para fins de propaganda parlamentar. 

Nota fiscal no valor de R$4.000 reais pagos pelo deputado Francischini a empresa acusada de disseminar Fake News para fins de propaganda parlamentar.

Um dos diversos sites dessa rede é a Folha Política, que juntamente à Folha do Povo, Gazeta Social, Correio do Poder, são administrados por uma única empresa, a RFA (Raposo Fernandes Associados), a qual recebeu financiamento do Deputado Federal Francischini.

O grupo administra também as páginas do Facebook dos sites citados além de outros como “MCC – Movimento contra Corrupção (a maior delas, com mais de 3,5 milhões de seguidores), Juventude contra Corrupção, Juiz Sergio Moro – O Brasil Está com Você, Apoio ao Moro e Movimento Democracia Participativa, além do perfil oficial do ator Alexandre Frota na rede social e do canal Ficha Social, no YouTube, entre outros”. Fonte UOL.

Imagine você a quantidade de pessoas que essas notícias podem atingir e como elas podem influenciar os pensamentos ou até mesmo direcionar para um determinado viés político. O debate aberto, com fundamentos, vem se tornando cada vez mais sinônimo de “chatice”, “textão” ou “mi mi mi”.

Facebook x MBL

Você talvez já conheça o grupo que atende pela sigla MBL, que significa Meninos Babões e Loucos – brincadeira! O sentido verdadeiro é Movimento Brasil Livre. Não vamos nos estender muito sobre a criação do movimento ou suas propostas, porque não é isso que estamos discutindo aqui. Contudo, devemos destacar a importância da amplitude desse grupo.

O grupo foi criado em 2014, embora alguns estudiosos já apontem a gênese do movimento a partir das Jornadas de Junho de 2013.

No ano de 2015 é que o grupelho ganhou forte divulgação, quando esteve diretamente ligado na organização de diversas passeatas que ajudaram a dar o caráter de apoio popular ao impedimento contra a então presidenta Dilma Rousseff.

Um dos muitos eventos organizados pelo MBL através do Facebook.

Eles também estiveram organizados numa marcha, que visava ocupar Brasília no ato de protocolamento do pedido de impedimento 

Chamada do MBL pela manifestação em Brasília em favor do impedimento da então presidenta Dilma Roussef (2016)

O grupo existe até hoje (2018), mas além de seus adjetivos como organizadores de eventos e manifestações públicas, o MBL também apresenta sua faceta obscura como um dos principais difusores de fake news.

Como já falamos, o Facebook vem tentando trabalhar por um processo de filtragem de páginas e de notícias falsas. Nesse sentido, em artigo divulgado no G1.Globo destaca-se que a rede social excluiu mais de 190 páginas, acusadas de compor uma “rede de desinformação”, na mesma linha, cerca de 87 contas por participação e difusão dessas notícias. Diversos coordenadores do MBL foram afetados pela ação.

Em comunicado, um dos líderes do MBL Kim Kataguiri confirmou a ligação do grupo com uma das páginas retiradas do ar, contudo, reiterou que as acusações contra o grupo são infundadas.

Veja a seguir a nota emitida pelo grupo sobre as acusações 

Nota oficial do MBL sobre a retirada de páginas e desativação de contas pelo Facebook

O Facebook, por sua vez, lançou também um comunicado sobre o caso, reproduzimos aqui na integra para vocês:

“Garantindo um ambiente autêntico e seguro (por Nathaniel Gleicher, líder de Cibersegurança)

O Facebook dá voz a milhões de pessoas no Brasil, e queremos ter a certeza de que suas conversas acontecem em um ambiente autêntico e seguro. É por isso que nossas políticas dizem que as pessoas precisam usar suas identidades reais na plataforma.

Como parte de nossos esforços contínuos para evitar abusos e depois de uma rigorosa investigação, nós removemos uma rede com 196 Páginas e 87 Perfis no Brasil que violavam nossas políticas de autenticidade. Essas Páginas e Perfis faziam parte de uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação.

As ações que estamos anunciando hoje fazem parte de nosso trabalho permanente para identificar e agir contra pessoas mal intencionadas que violam nossos Padrões da Comunidade. Nós estamos agindo apenas sobre as Páginas e os Perfis que violaram diretamente nossas políticas, mas continuaremos alertas para este e outros tipos de abuso, e removeremos quaisquer conteúdos adicionais que forem identificados por ferir as regras.

Nós não queremos este tipo de comportamento no Facebook, e estamos investindo fortemente em pessoas e tecnologia para remover conteúdo ruim de nossos serviços. Temos atualmente cerca de 15 mil pessoas trabalhando em segurança e revisão de conteúdo em todo o mundo, e chegaremos ao fim do ano com mais de 20 mil pessoas nesses times.

Contamos com as denúncias da nossa comunidade a respeito de conteúdos que possam violar nossas políticas e usamos tecnologia como machine learning e inteligência artificial para detectar comportamento ruim e agir mais rapidamente”.

Um problema ainda sem solução

O pesquisador e linguista, ex professor na MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) Noam Chomsky afirma: “As pessoas já não acreditam mais nos fatos”. Onde chegamos e onde ainda chegaremos assim?  Um tempo onde toda verdade, fato ou contexto pode ser facilmente relativizado, desacreditado, ao mesmo tempo em que os chavões e palavras de ordem inundam os debates entre as pessoas. Petralha, coxinha, vai pra cuba, reaça, signos que aos poucos se construíram para enquadrar o outro, sendo o outro todo aquele que pensa diferente de você.

Nenhum problema, por assim dizer, sempre tivemos a nós mesmos como referenciais. O problema – se é que podemos chamar assim – está na cortina de fumaça que esses discursos formam. O terreno para divulgação de inverdades se torna fértil quando sua preocupação crítica está zerada, mas seu ímpeto de atacar e defender um ponto de vista está em alta.

Você não se importa de chamar o outro de “fascista”, é fácil, é entendível. Você não se importa de acreditar em “bolsa bandido”. No primeiro exemplo, um conceito há tempos estudado, revisto e atualizado, mas amplamente usado pelo senso comum para categorizar um espécime similar a Hitler.

Do outro lado, o auxílio-reclusão que é um benefício previdenciário ao qual têm direito familiares de cidadão contribuinte que se encontra preso, cujo último salário recebido tenha sido inferior a R$1320 reais. O princípio condutor é o da proteção à família já que, estando o segurado recluso e impedido de trabalhar, a família não pode também ser punida, deixando de receber o benefício para o qual contribuiu a pessoa que se encontra momentaneamente encarcerada. Se não acredita, pode verificar por você mesmo diretamente no site do INSS.

Tentando evitar

Seja como for e seja qual for sua posição política dentro do espectro ideológico, enquanto cidadãos e para não sermos sempre enganados e manipulados, devemos exercer certo esforço. Esforço em averiguar fontes, ler e entender seus contextos, identificar, se possível, se o emissor já teve relações com a difusão de fake news, evitar repassar notícias das quais você não tem certeza, são formas de tentar garantir um debate mais limpo acerca de qualquer tema.

Você pode ainda fazer uso das agências de checagens. Claro, como toda instituição, elas merecem a devida crítica quanto ao trabalho realizado (às vezes é preciso checar quem está checando). Pois é, vivemos numa realidade e num tempo bastante fluído, onde ser enganado é praticamente inevitável. Entretanto, apesar de toda possível crítica, as agências de checagem são ferramentas importantíssimas no processo de valorização da verdade.

Listamos aqui algumas agências para te ajudar nessa empreitada:

Agência Pública

Aos Fatos

Agência Lupa

São agências de checagem nacionais, integrantes da IFCN (International Fact Checking Network), possuindo assim uma carta de princípios em comum para as iniciativas de checagem em todo mundo.

Previna-se!

Se você curtiu, acompanhe e compartilhe nosso blog para continuar a ser conscientemente manipulado.

 


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