A livre concorrência faz com que diversos empreendedores lancem seus produtos no mercado e disputem entre si o gosto do público. Essa competição estimula a inovação e a variedade de produtos. As leis universais da oferta e da demanda garantem o bom desenvolvimento da economia, operada pela misteriosa e onipresente mão invisível do mercado. Tudo isso funciona perfeitamente bem e leva, inevitavelmente, ao bem-estar da população, não é? Bom… não exatamente. Na melhor das hipóteses, nem sempre!

Às vezes, mais é menos…

Quando passeamos pelas vitrines dos mercados, nos deparamos com as mais diversas marcas de produtos, e, por conta disso, podemos ter a falsa impressão de que existem centenas de empresas diferentes produzindo essa grande diversidade de mercadorias. Mas a realidade é bem diferente…

O fato é que desde fins do século XIX é possível observar uma tendência de concentração de capital nas mãos de grupos cada vez menores, como resultado das constantes operações de fusão e aquisição de empresas por outras. Mas porque esse tipo de coisa acontece?

Uma empresa pode adquirir outras que pertencem à mesma cadeia produtiva, seja para adquirir matérias-primas mais baratas, seja para garantir a ela a existência de um mercado consumidor. Por exemplo, se você é dono de uma fábrica de papel, você pode adquirir uma gráfica para garantir um comprador para seus produtos. Ou, se você é dono de uma grande hamburgueria, pode adquirir uma rede de frigoríficos visando reduzir os custos com matéria-prima. Nesses casos, há uma concentração vertical dos negócios nas mãos dos mesmos empresários.

Trustes, cartéis, oligopólios e monopólios

Uma concentração horizontal ocorre quando duas empresas que vendem os mesmos tipos de produtos se fundem. Quando ocorre a fusão de empresas que sozinhas já detinham uma grande parcela do mercado, o resultado é o surgimento de uma empresa poderosa o suficiente para ditar os preços de mercado para seus produtos, elevando assim seus lucros e aumentando os custos para o cliente final. Esses dois tipos de processo de fusão, vertical e horizontal, também costumam ser chamados de truste.

Outra forma de associação horizontal é o cartel. Nessa situação, ao invés de haver fusão de empreendimentos, grandes empresas do mesmo seguimento estabelecem um preço comum para seus produtos. Assim, ao invés de baixarem seus preços visando a competição entre si, elas podem, de comum acordo, estabelecer um preço acima do que seria o valor de mercado, com o objetivo de aumentar os lucros de todos os envolvidos no esquema.

O cartel é uma prática favorecida pela existência de um oligopólio, isto é, um mercado constituído por poucos fornecedores de um mesmo tipo de produto. Já quando existe uma única empresa capaz de fornecer determinado produto, ela é denominada um monopólio.

Um dos maiores problemas com os trustes, oligopólios e monopólios, é que a grande concentração de capital nas mãos de tão poucas empresas ameaça a sobrevivência das empresas menores no mercado, eliminando a concorrência, o que contribui, num círculo vicioso, para mais concentração e mais poder na mão de poucas corporações.

Além disso, como ocorre com os cartéis, o grande poder de mercado (capacidade de uma empresa ou grupo de ditar os preços de seus produtos no mercado de bens e serviços) dessas empresas faz com que os consumidores fiquem a mercê de produtos mais caros e mais escassos do que seriam num mercado competitivo.

A contrabalança governamental

WilliamCho / Pixabay

Ao longo dos anos, diversos mecanismos foram sendo criados para combater esse tipo de prática. Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda em 1890 o Congresso aprovou a Lei Sherman Antitruste. Nos anos seguintes, outras leis, como a Lei Clayton, de 1914, foram reforçando a legislação antitruste e fornecendo instrumentos para que o governo fosse capaz de combater o desenvolvimento de grandes trustes e monopólios. Foi graças a essas medidas, por exemplo, que em 1995 a Microsoft, já uma gigante do software, se viu impedida de adquirir a Intuit, empresa voltada para a distribuição de softwares de finanças pessoais.

No Brasil, o órgão responsável por tratar desse tipo de questão é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Foi este o órgão responsável por impedir a aquisição da Estácio de Sá pela Kroton, em 2017. Caso a negociação não fosse impedida, a Kroton, detentora da marca Pitágoras, e que já havia se fundido com a Anhanguera e adquirido outras instituições de ensino, dominaria cerca de 46% do mercado de educação a distância.

Entretanto, esses mecanismos não são capazes de barrar o processo de concentração empresarial como um todo. Afinal, embora a formação de trustes e cartéis seja proibida, a formação de holdings e outros tipos de conglomerado empresarial continua sendo uma operação comum no âmbito empresarial.

O que são holdings?

Holding é o nome que se dá a uma empresa que, via de regra, não produz bens ou serviços. A função dela é administrar outras empresas das quais detém a maioria das ações. Muitas vezes tais empresas, de propriedade da holding em questão, também se fundem ou adquirem outras empresas. Assim, formam-se conglomerados de diversas empresas, nas mãos de uma só holding.

Somos todos Kroton

A Kroton, citada anteriormente, embora impedida de se fundir com a Estácio de Sá, fechou negócio com a Somos Educação, em abril de 2018, e se encontra em processo de aquisição da mesma. A Somos, por sua vez, é proprietária das marcas Ática, Scipioni e Saraiva, dentre outras. Dá uma olhada na imagem abaixo pra ter uma ideia do tamanho do conglomerado formado pela Kroton e pela Somos.

Marcas pertencentes à Kroton e a Somos.

Com essa aquisição, a Kroton terá grande influência no mercado educacional desde o ensino básico até a pós-graduação, com o material escolar incluso!

Voltando ao supermercado…

Conforme eu dizia antes, a gente tende a imaginar que aquela grande diversidade de marcas nas prateleiras corresponde a um número semelhante de outras empresas independentes, que produzem esses bens e os disponibilizam no mercado. Mas assim como ocorre com a área da educação, ocorre com todo o resto.

A gigante J&F, por exemplo, é dona, dentre outras empresas, da Flora e da JBS. A Flora, por sua vez é uma empresa de cosméticos e higiene que detém as marcas Minuano, Neutrox, Francis e uma dezena de outras. Já a JBS, detém marcas como Friboi, Big Frango, Rezende, Danúbio, Doriana, Vigor e Delicata.

Isso significa que é possível que você vá ao mercado comprar carne vermelha, lasanha, margarina, requeijão, xampú e sabonete e saia de lá com produtos de empresas que pertencem a um único grupo empresarial. Mas essa não é a parte mais intrigante.

Existe também o fenômeno que alguns chamam de a Ilusão da Escolha”, que é o que ocorre quando você acha que está escolhendo entre produtos semelhantes de empresas diferentes, mas, na verdade, elas pertencem ao mesmo conglomerado empresarial.

Vejamos o exemplo da BRF, outra gigante brasileira. Essa empresa é produto da fusão da Sadia com a Perdigão, e hoje é também proprietária da marca de margarina Qualy.  Tanto a Perdigão quanto a Sadia vendem linguiça toscana e defumada, lasanhas e empanados de frango, por exemplo. Nesse caso, o problema não é a diversidade de produtos fornecidos pelo conglomerado, mas sim o fato de que uma mesma corporação fornece produtos semelhantes, com marcas diferentes, fazendo o consumidor pensar que está diante de produtos de duas empresas diferentes.

Todos os caminhos levam à Coca-cola (Pode ser a PepsiCo)

Em meus exemplos, me limitei apenas aos grandes conglomerados nacionais. Mas no mundo existem conglomerados ainda maiores. Abaixo vocês podem ver uma imagem que gerou bastante polêmica ao mostrar as marcas e empresas pertencentes aos maiores conglomerados do mundo:

A imagem mostra como pouquíssimos conglomerados empresariais controlam a grande maioria das marcas de produtos do mercado.

Agora deve ter ficado mais claro como uma parte considerável do capital mundial se encontra nas mãos de um seleto grupo empresarial. E eu não mencionei aqueles grupos que detém número considerável de ações em diversas holdings diferentes. Por exemplo, mais de 70% das ações da Somos pertenciam à Tarpon, gestora de investimentos que também possuía grande quantidade de ações da BRF. De fato, apenas 174 empreendimentos, muitos deles bancos, são responsáveis pelo controle de 40% da economia mundial.

Os grandes bancos internacionais e conglomerados empresariais são poderosíssimos agentes econômicos de dimensões globais, que exercem grande influência sobre as políticas governamentais de diversos países, através de lobbies e da mídia (The Walt Disney Company e 21st Century Fox são conglomerados gigantes de mídia!).

O CADE e outras instituições análogas se esforçam para conter esse processo de concentração empresarial. Mas o fato é que isso tem se provado uma tendência irrefreável, que certamente tem relação com a crescente concentração de renda e o abismo que separa a minoria mais rica da grande maioria mais pobre.

Quer saber como a mídia e os lobbies de setores empresariais são capazes de influenciar a política nacional? As estratégias de marketing que as grandes empresas não querem que você saiba que elas usam? Continue acompanhando nosso blog para entender um pouco mais sobre como as coisas realmente funcionam!

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