Mc Melody estava certa:

"Fale bem ou fale mal, mas fale de mim." - Mc Melody

 

Se você não conhece Mc Melody – a rainha dos falsetes – e sua famosa frase, então você está por fora do mundo moderno.

A afirmação da jovem funkeira nunca fez tanto sentido antes na história da humanidade, especialmente com o advento do fenômeno Whuffie no mundo virtual.

Para quem desconhece o conceito, whuffie é uma espécie de moeda fictícia, que diz respeito ao valor de um perfil de rede social, pessoa, tema, assunto ou produto, baseado na sua reputação. Mas na internet, como sabemos, reputação não é algo medido por critérios de bom ou ruim, mas sim de capacidade de repercussão.

Por exemplo, se você compartilha o vídeo de alguém fazendo algo completamente bizarro, mesmo que seja para criticá-lo, você acaba gerando mais visualizações para o autor do vídeo. E isso, consequentemente, eleva a reputação dessa pessoa, o que fará ela ficar ainda mais rica virtualmente.

 Whuffie, do começo…

Símbolo da moeda fictícia Whuffie

O whuffie não é exatamente uma moeda virtual, no sentido tradicional do termo, como a bitcoin, por exemplo, que você utiliza para comprar e vender produtos. O termo whuffie foi criado por Cory Doctorow – autor de ficção, ativista e jornalista –  em seu romance de ficção científica Down and Out in the Magic Kingdom, e consiste em uma moeda que mede a riqueza de uma pessoa baseado em sua reputação.

Ou seja, se no dia a dia o dinheiro suado vem através do trabalho, essa moeda poderia, em tese, ser conseguida com base na repercussão que tem o seu perfil numa rede social, seus vídeos ou mesmo um determinado assunto.

Embora o whuffie não exista como moeda de troca de verdade, algumas pessoas já tentaram implementá-lo na vida real. É o caso do The Whuffie Bank, iniciativa de 2009 que buscava definir o valor de determinada pessoa através de dados do Facebook ou Twitter. E é bem possível que num futuro não muito distante qualquer pessoa possa pesquisar na internet quanto ela vale em whuffies, do mesmo jeito que hoje podemos pesquisar a cotação do dólar.

Whuffie e o Capital Social

A ideia dessa moeda está ligada também ao conceito de Capital Social, indicando que, para além do Capital Financeiro (dinheiro, ações, etc.), a popularidade na internet tem se tornado um importante elemento de geração de valor. Alguns especialistas veem nesse processo uma nova forma de capitalismo. Mas se com dólares você poderia comprar um celular, o que você poderia comprar com whuffies? Respondo: alcance e visibilidade para você e os produtos que você anuncia.

Uma grande quantidade de whuffies no meio digital significa que você tem um perfil ativo, relevante para comunidade virtual e portanto de uma capacidade publicitária enorme. Essa relevância pode tornar qualquer um bem sucedido, pois o que vale não é a qualidade subjetiva de alguma coisa, mas sim a qualidade objetiva.

O que isso quer dizer na prática?

Um alto nível de repercussão na internet pode elevar a moral daqueles que não são necessariamente bons, mas conseguem de alguma forma chamar a atenção. Com isso, sua popularidade virtual se amplia.

Esses artistas, blogueiros, políticos, anônimos de toda sorte tentando um lugar sob a rede de likes e views, começam então a chamar a atenção das mais diversas equipes de propaganda.

De maneira bem simples, quanto maior o raio de alcance de uma pessoa, mais pessoas ela é capaz de influenciar. Isso é um prato cheio para os milhares de produtos na prateleira da internet que desejam um pouco mais de sua atenção. Não importa se falam bem ou mal do interlocutor nessa história, o importante é que se fale dele. 

Sucesso nacional: Gleyfy Brauly

Antes de continuar sua leitura, cola o ouvido nesse som:

https://www.youtube.com/watch?v=BtKg458XAHk

Curtiu?

Pois então, Brauly fez tanto sucesso com seu inglês peculiar e seu deslumbrante teclado que se tornou viral na internet. Tamanho sucesso fez com que o seu cachê pulasse de R$100 reais para a bagatela de R$15.000.

Este é apenas um exemplo da lógica whuffie. Você compartilha, você ajuda. Se na vida real você for operário, talvez possa se tornar um grande magnata no mundo virtual e – com sorte – isso mudará sua condição também na vida real.

Seu whuffie é resultado de sua reputação e sua reputação pode te render muito mais do que a simpatia das pessoas. Ele pode fazer com que o status do seu trabalho aumente absurdamente. Não importa que a razão dos compartilhamentos e curtidas tenha sido chacota. O whuffie ignora as intenções e olha pontualmente para o sucesso que uma coisa – seja boa ou ruim aos seus olhos e ouvidos – é capaz de fazer.

O fator Whuffie

geralt / Pixabay

Para a especialista em comunicação Tara Hunt, o fator whuffie está promovendo uma mudança no mercado. Para ela, as empresas devem mudar sua forma de atuação, passando a se focar ainda mais nas experiências individuais dos consumidores.

Com tantos consumidores, como delimitar o foco de atuação? Pois bem, é aqui que entra o fator whuffie:  aqueles consumidores com mais moedas digitais – ou seja – com maiores capacidades de repercutir uma ideia ou mesmo um produto, passam a ser os principais alvos dessas empresas.

Contudo, a real implicação para nós mortais, anônimos na vida e na rede, é a de que compartilhamos diariamente conteúdo relacionado a uma série de figuras e assuntos que muitas vezes nem nos agrada. Mas quando você usa sua rede social para criticar ou zoar alguém, para o Banco de Whuffies você está na verdade promovendo essa pessoa.

As empresas já perceberam. As equipes de marketing também. Até mesmo os políticos e seus assessores estão surfando nessa onda, promovendo os mais diversos tipos de assuntos polêmicos para se manterem vívidos na mídia e na rede.

E agora, o que eu faço pra não promover um monte de besteira por aí?

É mais simples do que parece. Se você gosta de Melody e não gosta da Anitta, basta compartilhar mais coisas da Melody. Se você prefere ópera ao funk, compartilhe ópera. Curta ópera. Se é a favor de um candidato e não suporta o outro, compartilhe conteúdo apenas sobre o seu candidato.

Mesmo que compartilhemos para fazer humor, ainda assim elevamos aquilo que não gostamos e temos que – consequentemente – conviver com a presença cada vez mais constante dessa pessoa, ou assunto.

Lembre-se, quando você compartilha o post de uma pessoa para criticá-la no Facebook, você está enchendo ela de whuffies! E se ela tem muitos whuffies, ela pode transformar isso em dinheiro. Você não quer realmente enriquecer as pessoas de quem você não gosta, não é mesmo?

Gostou do artigo? Que tal dar alguns whuffies pra a gente compartilhando esse texto no seu Facebook?


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