As máquinas pararam…

Você já imaginou um mundo onde as máquinas e todas as tecnologias que conhecemos simplesmente não funcionem? No início do século XX Edward M. Forster não só imaginou este cenário, como escreveu um breve conto a esse respeito. Em The Machine Stops, a vida humana se transfere para o subterrâneo da terra e toda existência é baseada em manter as máquinas funcionando.

Em nosso tempo, vivenciamos brevemente a experiência de viver perante a ausência colossal das máquinas e tecnologias. No ano de 1965 ocorreu um grande blecaute que deixara toda Nova York, Boston e a costa nordeste americana completamente mergulhada na escuridão. Anos mais tarde, em 1977, a queda de raios fez paralisar toda subestação elétrica de Nova York, provocando um novo apagão e muito pânico na cidade, e não foram precisos mais do que 20 minutos para que o prefeito decretasse Estado de Emergência numa das cidades com mais alto índice de criminalidade no mundo.

Os aeroportos navegavam sem os seus radares, estavam quase que, literalmente, cegos. Metrôs ficaram parados, elevadores trancados. De repente, o referencial para se viver parecia ter evaporado diante de tantos os olhos. As pessoas não sabiam mais para onde ir ou o que deveriam fazer.

Mas, agora, refaço a pergunta: você consegue imaginar um mundo onde as máquinas e todas as tecnologias funcionem a pleno vapor?

Talvez, no seu impulso inicial, você responda que sim, que está vivendo nesse mundo, bem nesse tempo. Contudo, você realmente conhece a amplitude dos avanços tecnológicos em nossas vidas?

Uma modernidade obscura

Nada contribui tanto para o desenvolvimento da produção em série como a guerra. A máquina a vapor, os primeiros motores de combustão interna, o automóvel, os aviões. O primeiro computador e a primeira conexão em rede. Todas essas invenções tiveram aplicabilidade na guerra, quando não foram criadas especificamente por conta dela, embora desfrutemos hoje de muitas delas de modo lacônico.

Tanques em desfile militar no final da I Guerra Mundial, em Londres.

Tanques em desfile militar no final da I Guerra Mundial, em Londres.

Tecnologias que assombravam o século XIX por suas dimensões colossais e que chegam ao século XXI microscópicas, não diminuindo, contudo, o assombro. Essas ferramentas adentram o século XXI sendo permanentemente estudadas e aplicadas pelos governos e pelas pessoas, com os objetivos mais diversos. A Era Industrial cede lugar à Era da Informação e a guerra é, frequentemente, transplantada do mundo tangível para o virtual. A vigilância, a espionagem e o controle vão substituindo as formas tradicionais de coerção.

O caso Snowden

Você se lembra de Edward Snowden? Se a resposta for sim, o quanto você consegue se lembrar dele, além do seu nome? Esse cara é um profissional da área de informática que trabalhou para a CIA e NSA. Snowden foi o sujeito que divulgou amplamente a existência do XKeystroke, um programa criado nos EUA para xeretar a vida de todo mundo.

Foto de Edward Snowden

Edward Snowden.

Por conta disso, foi acusado de espionagem e de revelar em detalhes os programas de vigilância que o país usa para espionar a população americana – utilizando servidores de empresas como GoogleApple e Facebook – e vários países da Europa e da América Latina, entre eles o Brasil.

Ora, mas o que isso tem a ver com você?

Tirando a possibilidade de sua página inicial não ser o Google e você nunca usá-lo para busca, não se utilizar da rede social Facebook ou mesmo ter um celular, então de fato, talvez não tenha nada a ver com você. Do contrário, o que estamos dizendo é basicamente que a sua privacidade pode ser invadida sem você sequer perceber.

Ah! Mas eles são criteriosos, não estão fazendo isso pela nossa segurança?

 Você acha mesmo? Primeiro, deveria responder para si mesmo, quem são “eles”. Saberíamos de cara que se trata do governo americano, o qual garante a liberdade de expressão, direito a propriedade e a privacidade (aparentemente, esta última apenas quando conveniente).

No Brasil, o ordenamento jurídico tende a garantir também o direito à privacidade e a intimidade (Art 5, Constituição Federal). Então, você ainda acha que é correto um agente exterior ter acesso às suas conversas, seus conteúdos e tudo mais que você compartilhe na intimidade do seu aparelho celular e suas aplicações, sem o seu consentimento ou da Justiça do seu país?

O Ataque dos Vermes Malditos!

Navegando na rede ou não, podemos nos deparar com os mais diversos tipos de malware, que são programas maliciosos, criados para danificar de alguma forma o computador e/ou seus sistemas. Estamos acostumados a chamar todo malware de vírus. Existe, contudo, um número grande e diversificado de malwares por aí, sendo um deles o chamado Worm ou “verme”, em tradução literal.

Esse programa malvadão é capaz de se propagar automaticamente pela rede, enviando cópias de si mesmo de lugar para lugar. Diferente da maioria dos programas maliciosos, o worm não precisa ser executado! Ele é tão inteligentemente criado, que vai se aproveitando das vulnerabilidades do sistema e falhas na configuração dos nossos computadores.

No ano de 2010, o governo americano – suspeita-se que com participação também de Israel – criou uma belezinha chamada Stuxnet. O stuxnet não afeta computadores comuns, ele foi criado para atuar no sistema operacional Scada, que para quem não sabe, é o sistema responsável por controlar centrífugas de urânio. Esse worm foi usado com intuito de parar as centrífugas iranianas, prejudicando a produção – quem sabe? – de bombas nucleares.

Central nuclear de Bushehr, no Irã

Central nuclear de Bushehr, no Irã.

Nesse ponto, talvez o leitor sinta alívio, pois quem precisa de mais armas nucleares no mundo, certo?

 

Para nós, meros mortais, é esse mesmo o pensamento. Mas, para governos do mundo inteiro, para as equipes de Defesa, Tecnologia, Segurança pública e tudo mais que seguir esta linha, foi mostrado que uma nova forma de se fazer guerra estava disponível e atuante.

Pense por um momento: se, por razões duvidáveis, um governo estrangeiro resolvesse escrever um malware como o Stuxnet a fim de parar as máquinas da sua cidade que funcionam sob um determinado sistema operacional? Acho que, nesse caso, já não ficaríamos mais tão aliviados, certo? O cenário caótico em que nossas cidades mergulhariam seria digno do apocalipse.

Você é informação…

 O futuro reserva a morte da memória. Um exemplo: O Google. A capacidade de antevisão dos seus desejos e sugestões baseadas em seu histórico de uso, de pesquisa de compras, tudo por algoritmos que se projetam e reprojetam. O ser humano será, mais do que nunca, medido por aquilo que ele pesquisa, pelo que curte e compartilha.

Em 2016 a Cambridge Analytica usou seu banco de dados do Facebook para impulsionar a campanha de Donald Trump às eleições. As políticas, sob esse viés, não são mais desenvolvidas para eleitores e cidadãos, mas sim para consumidores.

Apesar do escândalo, nem a equipe de marketing do governo, muito menos o Facebook, tiveram grandes baixas. O preço que pagamos para usar essa rede social é cobrado sucessivamente através de propagandas que não desejamos, e de uma enxurrada de sugestões que não temos sequer tempo de assimilar.

Se nós, que agora somos perfis, tratados como dados inumanos, valemos tanto por isso, porque não lucrar, então? Foi justamente o que pensou o londrino Oli Frost, que colocou  seus dados do Facebook à venda no eBay. Os dados de Froste incluíam todas as curtidas, posts e comentários desde que ele tinha 16 anos. As informações seguiam também de fotos de sua adolescência, até mesmo em quem ele votou ou onde toda sua família morava. Se esses dados serão utilizados para ações fraudulentas, esta é outra questão.

A Enciclopédia das Almas

Existem filósofos e cientistas por aí que estão se fazendo a pergunta: se armazenamos informações rotineiras em cd, drive, aqui e ali, porque não podemos armazenar nossas próprias informações – nosso “id” – em cartões disponíveis numa biblioteca?

Imagine agora que tentem unificar toda experiência humana num só banco de dados? Minha memória, sua memória, a memória de todos que vimos, que ignoramos, que falamos, cumprimentamos… Se esse banco de dados pudesse ser constantemente atualizado, estaria pronto: um verdadeiro oráculo das experiências humanas. A enciclopédia das almas.

Em Março de 2016, a BBC Brasil lançou uma matéria bastante apropriada ao tema. “Bilionário russo quer transferir seu cérebro para computador e ‘imortaliza-lo’”. Com um pouco de grana e excentricidade, não há nada que um bilionário não possa fazer, não é mesmo?

O russo Dmitry Itskov estava disposto a trocar a falência do seu corpo perecível e constantemente mais velho, pela capacidade das constantes atualizações num sistema de informação que – pasmem – seria ele mesmo, só que agora sem corpo, células ou sangue, apenas perfil de informação. Tal ideia encontra ainda apoio no campo da neurociência, pesquisadores como Randal Koene afirmam que, embora difícil, a transferência é possível.

Nessa brincadeira, entrou até um renomado grupo de cientistas americanos, responsáveis pelo estudo do cérebro e certas doenças como o Alzheimer. Assim, a Brain Initiative estaria também empenhada em conseguir mapear o funcionamento cerebral, bem como cada neurônio, para que assim seja possível realizar sem maiores problemas um download de nós mesmo.

Tá acontecendo…

Embora ainda seja uma pequena e singela gênese, nada se comparado a transportar sua personalidade e memórias para nuvem e viver sempre em rede, na China começam a ser testados óculos de reconhecimento facial, capazes de acessar com uma olhada a ficha criminal de uma pessoa na rua. Por hora, a tecnologia só pode ser usada por policiais, mas em quanto tempo será que a indústria do entretenimento vai demorar para criar aplicativos de relacionamento e compatibilidade com isso, nos fazendo viver exposto ao alcance dos olhos.

Policial chinesa utilizando óculos de reconhecimento facial.

Policial chinesa utilizando óculos de reconhecimento facial.

Embora ainda encontre certas implicações éticas, a organização de uma verdadeira Enciclopédia de Almas garantiria um banco de dados mais diverso que o próprio mundo. Não haveria nada pela qual não se tivesse passado, ou que não tivesse sentido, porque as memórias de todos os corpos estariam lá, disponíveis e abertas, prontas para consulta ou a espera dos corpos que ainda tivessem um coração batendo.

Enfim, Karma!

Quando Heidegger diz que a ciência não pensa, ele não está querendo dizer que a ciência não tenha um propósito ou que os cientistas sejam acéfalos. O que ele está querendo dizer, no fundo, é que a ciência só calcula. Esse calcular é prejudicial porque faz com que o homem se esqueça da vivência. Mais prejudicial ainda, porque torna o homem mero objeto de análise de cálculo e, quiçá, num experimento.

O Karma não tem o caráter do espanto. Você fez, você cumpre. É Karma, é ‘mítico’. Eu não me espanto com isso. Depois de uns sete ou oito milênios dominando a tecnologia, chegou a hora de sermos dominados por ela. Desejamos ser.

O futuro é obscuro. A capacidade de autodestruição a que chegou a humanidade constitui uma conquista irreversível. A consciência da possibilidade do fim da existência faz parte dos frutos do progresso. Os homens se esquecerão de si. Ser e informação serão sujeitos distintos da mesma moeda.

Esse oráculo é o produto da ciência que altera a vida das pessoas, que altera a realidade e faz com que o homem se esqueça do ser. É o que a nossa calculadora de bolso faz. Qual é a raiz quadrada de 47? Sua calculadora sabe, você não precisa ser pra saber. Ela não é viva, mas sabe por você.

Indicações de filme sobre o assunto

Vanilla Sky

Minority Report

Transcendence: A revolução


1 comentário

Mariana Porto · 05/07/2018 às 1:25

Muito bem, muito bom <3

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