Você certamente já ouviu falar de fake news: “Barack Obama é o fundador do Estado Islâmico.”, “Hillary Clinton apoiou a venda de armas para jihadistas”, “Se o Reino Unido não saísse da União Europeia, sofreria uma invasão de refugiados turcos”, “A União Europeia quer controlar a costa do Reino Unido.”, “Fátima Bernardes reformou a casa do homem que esfaqueou Bolsonaro.”, “Manuela D’Ávila quer acabar com feriados cristãos”.

Todas essas frases foram ditas de 2016 pra cá, e nenhuma delas corresponde à realidade. Mesmo que nenhum grande jornal tenha abordado o assunto, mesmo que não houvesse nenhum tipo de prova, mesmo que algumas dessas manchetes soassem realmente estapafúrdias, muitas pessoas acreditaram nelas e ajudaram a propagá-las pelas redes sociais. Por quê?

A ERA DA PÓS-VERDADE

Em seu breve artigo intitulado Comunicação, Jornalismo e ‘Fact-cheking’, José Antonio Zarzalejos define pós-verdade como um substantivo  que”descreve uma situação na qual, durante a criação e a formação da opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência do que os apelos às emoções e às crenças pessoais”.

E foi justamente esse o termo eleito como a palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2016. Obviamente a escolha dessa palavra não se deu por acaso naquele momento. Pelo contrário, ela foi eleita no contexto de duas disputas de importância fundamental para todo o sistema internacional. A primeira delas diz respeito à disputa entre Hillary Clinton e Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A segunda, por sua vez, refere-se ao debate entre os adeptos do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e aqueles que defendiam a permanência do Reino Unido na UE.

O que essas duas disputas têm em comum é que ambas foram marcadas pela difusão de fake news* (notícias falsas). E estas podem muito bem ter influenciado o resultado final. Além disso, elas definiram uma tendência que foi mais tarde seguida em outros contextos. Dentre eles, o da eleição presidencial brasileira de 2018.

(Nós já publicamos um artigo sobre fake news bem aqui!)

MENTIRA OU PÓS-VERDADE?

Muitos intelectuais afirmam que pós-verdade é apenas um modo mais polido, uma nova roupagem, para se referir a uma prática muito mais antiga: a mentira. De fato, a pós-verdade está intimamente ligada às fake news, que não deixam de ser mentiras em forma de notícia.

Entretanto, existe uma diferença que me parece essencial. Enquanto a mentira pode ser vista como o oposto de verdade, a pós-verdade está relacionada a uma situação na qual a verdade dos fatos é secundária, ou simplesmente não importa.

Além disso, em alguns casos, ela também não engana, apenas. Pois o receptor pouco se importa se o conteúdo é verdadeiro ou não, contanto que este reforce suas convicções e possa ser utilizado como arma contra o adversário.

Uma segunda diferença é que a mentira pode ser produzida por uma miríade de razões. Ela está presente, por exemplo, em boatos, hoaxes, anedotas e golpes de estelionatários. Já as fake news costumam servir ao propósito específico de incitar determinados sentimentos no receptor para manipular seu modo de ver o mundo. Resumidamente, a pós-verdade está diretamente relacionada à manipulação da opinião pública.

Não se sabe ao certo o quanto as fake news são capazes de influenciar os resultados dessas disputas políticas. Mas uma coisa é certa: nas três disputas citadas neste texto (Hillary Clinton x Donald Trump, Brexit x Pró-UE, Fernando Haddad x Jair Bolsonaro) os derrotados foram justamente aqueles que mais sofreram ataques difamatórios provenientes de fake news.

O ESCOLHIDO PELO PAPA VERSUS A APOIADORA DOENTE DE JIHADISTAS

Um estudo divulgado pelo site The Conversation, por exemplo, avaliou o impacto de três fake news espalhadas durante as eleições dos Estados Unidos. Duas comprometiam diretamente a imagem de Hillary Clinton, e uma favorecia a imagem de Donald Trump.

De acordo com o estudo, 25% do total de entrevistados tinha certeza ou quase certeza que Hillary Clinton tinha sido acometida por uma doença grave e passava muito mal de saúde. Dentre os eleitores que haviam votado em Obama nas eleições anteriores (que seriam mais inclinados a continuar votando nos Democratas), 12% acreditavam nessa notícia.

Em relação à segunda fake news, que dizia que quando Hillary Clinton era Secretária de Estado, havia aprovado a venda de armas para jihadistas, inclusive do Estado Islâmico, 30% de todos os entrevistados disseram ter certeza ou quase certeza que isso era verdade. Dos antigos eleitores de Obama, 20% acreditavam na notícia.

A última fake news analisada afirmava que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump. 10% do total de entrevistados acreditava na veracidade desta notícia. 8% dos eleitores de Obama o faziam.

O estudo informa ainda que 89% dos que não acreditavam em nenhuma das notícias falsas votaram em Hillary. 61% dos que acreditaram apenas em uma das notícias votaram na candidata, e apenas 17% dentre os que acreditaram em duas ou nas três, votaram nela.

Não é possível afirmar que as eleições foram decididas apenas na base das fake news. Mas tal pesquisa sugere que a propagação de notícias falsas e a convicção na veracidade delas pode sim ter influenciado na decisão dos eleitores durante tal eleição, que foi muito acirrada.

Imagem de Donald Trump e Hillary Clinton

As Fake News no Brasil: FACADA SIMULADA, MAMADEIRA COM BICO EM FORMA DE PÊNIS E KIT SATÂNICO PARA CRIANÇAS

As eleições do Brasil também deram muito trabalho para as agências de checagem de fatos e fez o anglicismo fake news cair no gosto popular. Surgiu inclusive o que chamo de “fake fake news”, que é a notícia verdadeira, chamada de fake news por aqueles que simplesmente não queriam admitir a verdade dos fatos.

Aqui, os ataques aconteceram dos dois lados. Mas, entre bolsonaristas e petistas, o terreno de Bolsonaro mostrou-se muito mais fértil para o desenvolvimento da pós-verdade. Uma reportagem do Congresso em Foco demonstrou que das 123 fake news apuradas por agências de checagem, 104 beneficiaram Bolsonaro, o que corresponde a 84.5% do total apurado.

Dentre as fake news contra Bolsonaro, merecem destaque a que afirmava que Bolsonaro havia se alistado no exército de Hitler e aquelas relacionadas ao ataque sofrido pelo candidato: Bolsonaro teria chegado ao hospital caminhando; não haveria sangue na camisa do candidato; e o ataque faria parte de uma conspiração para esconder um suposto câncer do candidato.

Já contra Haddad, especificamente, e contra o PT, no geral, inventaram todo tipo de notícia grotesca (me diverti bastante lendo a lista, inclusive). Dentre as notícias, destacam-se aquelas que dizem respeito à educação infantil: kit gay, kit satânico, mamadeira com bico em formato de pênis, ilustração de relação sexual entre dois homens em cartilha do MEC, crianças que, a partir dos cinco anos, se tornam propriedade do Estado, que escolherá se elas serão meninos ou meninas, etc.

Outra tendência foi a de tentar relacionar o autor do atentado contra Bolsonaro ao PT (você pode conferir a lista completa clicando no link anterior).

QUANTIDADE VERSUS QUALIDADE

O time de Bolsonaro ganha não só em quantidade, como também em qualidade. De acordo com reportagem da Veja, O pleito das fake news, das 10 fake news mais divulgadas no primeiro turno, 9 beneficiavam Jair Bolsonaro. A décima, por sua vez, foi considerada ambígua, e sugeria o apoio de traficantes do Comando Vermelho ao candidato.

Ainda de acordo com a reportagem, as fake news mais divulgadas foram:

  • Um suposto ato pela saúde de Bolsonaro em Campinas, que na verdade era um vídeo da copa de 2014;
  • A notícia de que Jean Wyllys seria Ministro da Educação de Haddad;
  • Imagens da manifestação do #elesim em Copacabana utilizando imagens das manifestações contra a Dilma em 2015.

A PÓS-VERDADE SE NUTRE DE MEDOS, ANSIEDADES E PRECONCEITOS

Analisando esses três casos, podemos perceber como os produtores de fake news jogam com os medos, ansiedades e preconceitos da população para atingir seus fins.

Os Estados Unidos, por exemplo, é um país que foi palco de um dos mais trágicos atentados terroristas da história, e, após este incidente, vestiu a camisa da luta contra o terrorismo. Assim, relacionar os democratas (Obama e Hillary) com os jihadistas causa, naturalmente, uma forte impressão na opinião pública.

No caso de Obama, eles unem o medo ao preconceito, explorando a origem estrangeira do ex-presidente (seu pai é queniano), que, por ironia do destino, ainda tem “Hussein” como nome do meio.

Já no Brasil, tem se desenvolvido uma preocupação (que, em alguns casos, quase beira a histeria coletiva) em relação à uma suposta doutrinação política nas escolas e à promoção da “ideologia de gênero”.

Os produtores de fake news, tentam, então, mostrar como o Estado busca corromper os valores da família tradicional brasileira através de instituições como o MEC (que, durante parte da gestão petista, foi dirigido por Haddad).Segundo eles, essas instituições do governo estimulariam as crianças a tornarem-se homossexuais, satanistas, e a praticarem incesto, por exemplo.

No Grã-Bretanha, os produtores de notícias falsas utilizaram, dentre outros artifícios, o medo em relação aos migrantes europeus. Pois esses migrantes, supostamente, roubariam os empregos dos trabalhadores da ilha.

Em alguns casos, tais relatos mencionavam ainda a iminência da entrada da Turquia no bloco. O acréscimo desse elemento adiciona ao quadro matizes de preconceito étnico e religioso, ante a ameaça de uma invasão de refugiados turcos muçulmanos. Ao mesmo tempo, a própria possibilidade da Turquia entrar no bloco é cada dia mais remota, por diversos motivos.

PÓS-VERDADE COMO TRABALHO COLETIVO

Um outro aspecto preocupante é que nem sempre as notícias falsas são fruto do trabalho voluntário de alguma pessoa mal-intencionada agindo individualmente.

Em seu artigo sobre fake news publicado aqui no site, David Coutinho citou dois casos brasilieros notórios. Um deles é o do MBL, grupo que empreende grande esforço coletivo na propagação de fake news. O outro é o de Fernando Francischini. Francischini é um parlamentar do PSL, atual partido de Bolsonaro, que utilizava dinheiro público para financiar empresas responsáveis por produzir fake news.

A esses dois exemplos, podemos acrescentar o recém-descoberto esquema das contas de Whatsapp. Que foi revelado numa reportagem da Folha de São Paulo, de 18 de outubro de 2018, 10 dias antes do segundo turno das eleições.

PÓS-VERDADE COMO NEGÓCIO LUCRATIVO

De acordo com a reportagem, empresários ligados a Bolsonaro contrataram empresas para favorecer o candidato. Essas empresas foram responsáveis por enviar, através do Whatsapp, mensagens em benefício do candidato, incluindo aí, fake news. Cada contrato chegava até 12 milhões! Inclusive, uma das empresas clientes era a Havan, cujo dono é notório apoiador de Bolsonaro. O método é considerado ilegal de acordo com a legislação eleitoral e burla as regras do próprio Whatsapp.

O PAPEL DOS TABLOIDES NO CASO INGLÊS

Embora relacionemos às fake news ao Facebook e Whatsapp, não podemos esquecer que a mídia tradicional nunca foi um exemplo de propagador isento de informações. Mas em alguns casos mais extremos, o jornalismo tendencioso e sensacionalista pode dar lugar à mentira escrachada.

No Reino Unido, os tabloides desempenharam papel importante na manipulação da opinião pública no caso Brexit. Uma prática comum era a de apresentar manchetes falsas em letras garrafais na primeira página dos jornais para depois (quando constatada a farsa e obrigados pela justiça a se retratarem) publicar suas correções em pequenas observações na capa ou no interior da publicação.

A instituição contra o Brexit denominada In Facts, que busca denunciar e esclarecer as mentiras divulgadas em benefício do Brexit, elencou uma série dessas situações em uma de suas reportagens.

Manchete sensacionalista do Daily Mail sobre migrantes europeus.

Manchete sensacionalista do Daily Mail sobre migrantes europeus.

No exemplo acima, vemos uma manchete que diz “Enquanto políticos discutem sobre controle de fronteiras, outro carregamento de migrantes chega ao Reino Unido dizendo… NÓS SOMOS DA EUROPA – DEIXEM-NOS ENTRAR!”. Ao lado, a foto de um grupo de migrantes encontrado em um caminhão por uma operação da polícia metropolitana.

Tal manchete traz um forte apelo àqueles preocupados com os efeitos negativos da migração em massa de europeus do continente para a ilha. Migração esta, ocasionada por uma maior facilidade de acesso por conta da União Europeia. O problema é que os migrantes em questão eram provenientes do Kwait e do Iraque, não da Europa.

Ao lado, circulado de vermelho, uma nota na página 2 da edição seguinte, corrigindo o “equívoco”. Certamente esse tipo de clarificação não é suficiente para reverter as impressões deixadas pela manchete em questão. E casos como esse não são incomuns.

CAMINHANDO PARA ERA DA PÓS-MENTIRA

Como foi possível perceber, as fake news se transformaram em um instrumento poderoso de manipulação. E podem ter influenciado decisivamente processos decisórios importantes ao redor do globo, embora seja impossível avaliar precisamente o impacto das mesmas.

Combater as fake news não é um trabalho fácil. Para isso, é necessário um trabalho conjunto das redes sociais, da justiça e da sociedade. Não só através das agências de checagem, mas também através do uso responsável das redes sociais e do exercício individual de checagem de informações. Sem falar na iniciativa de esclarecer as pessoas que foram enganadas pelas fake news.

No artigo sobre fake news do nosso site, já citado aqui, você vai encontrar o link para algumas agências de checagem, além de um infográfico que vai te ajudar a identificar notícias falsas recebidas pelo Facebook.

Somente através desse esforço coletivo (do qual o Black Marketing também participa!) é que poderemos alcançar um futuro em que a verdade volte a importar e as decisões mais importantes da sociedade sejam tomadas com base em fatos e não em medos infundados e preconceitos.


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